17 de abril de 2013

Opinião Sobrenatural: "Viagem ao Templo dos Espíritos" de Sofia Andrade


Viagem ao Templo dos Espíritos foi um daqueles livros que li por impulso e por o ter há demasiado tempo na minha estante.
Ontem, decidi então ler e saciar a minha curiosidade. Confesso que por ser literatura Portuguesa me colocou de pé atrás, e ainda bem, visto que assim as minhas expectativas não estavam elevadas de mais.
Aqui nesta obra, a característica mais evidente e que achei curiosa foi o facto de o conteúdo estar num patamar acima da escrita. Isto é, normalmente queixo-me que o livro está muito bem escrito, mas que em termos de história ainda há muito por desenvolver. Neste caso, considero o oposto, visto que o enredo e as personagens estão razoáveis, mas o que desvaloriza é mesmo algumas características da escrita de Sofia Andrade.
Começando pelos pontos negativos, nomeadamente o que não concordei/gostei da escrita: tempos verbais errados; a utilização imperfeita da primeira pessoa; descrições demasiado pormenorizadas que encheu o texto de publicidade ou de informação desnecessária; frases fora do contexto ou que "caíram de para-quedas"; frases demasiado extensas que mais parecem fusões de duas ou mais frases, sendo a única ligação as vírgulas; ausência do itálico quando a autora se refere aos pensamentos das personagens; o uso do travessão ao invés das aspas no diálogo quando a mesma personagem continua a falar; uso de diminutivos nos adjectivos e descrições - o que juntamente com algumas expressões torna o texto um pouco infantil; excesso de reticências nalguns excertos comparativamente com o resto; ausência de divisão por capítulos, mas compensado pelos espaços entre os excertos; factos e pontos contraditórios; demasiadas repetições, tanto ao nível de palavras na mesma frase ou paragrafo como de ideias e frases.
Um dos factos contraditórios incide na personagem principal. Ao longo de todo o livro esta é caracterizada como humilde, mas muitas vezes assistimos a acções ou afirmações que a tornam pretensiosa e convencida, já para não referir a infantilidade - o que não contribui para a empatia para com Leonor.
O facto de todos estarem apaixonados por ela e a beleza da personagem principal ser bastante evidenciada e elogiada também não foi nada a favor, visto que as reacções da personagem a estes elogios e desejos a tornam vaidosa e excessivamente perfeita, quando o que a autora no inicio nos parecia transmitir era que Leonor representava uma jovem sonhadora, cuja melhor amiga e prima havia morrido de uma morte prolongada (este podia ter sido um ponto muito mais desenvolvido e aproveitado), com uma boa relação com a mãe e uma má com o pai (mais uma vez esta situação foi muito mal desenvolvida), e uma vida escolar estável que depois é prejudicada pelos sonhos e mundo paralelo.
Também achei o primeiro encontro e os diálogos entre Leonor e Gabriel demasiado confiantes, surgindo o amor deles bastante rápido, mesmo para amor à primeira vista, o que mais uma vez contribui para uma obra ainda muito "jovem" e crua, e como estes momentos supostamente mais românticos muito leves e sem qualquer clima ou impacto. Ou seja, aquela paixão e arrebatamento não é transmitida para o leitor.
Mas, tal como referi no inicio, nem tudo é mau (apesar da minha extensa lista acima). Os cenários, principalmente do Templo, a referencia aos deuses, às sereias, aos animais, e aos espiritos, foram aspectos agradáveis, que tornaram a história mais animada. Gostaria de dizer colorida, mas a autora parece ter uma preferência pelo branco...
Gostei também do primeiro ataque de Lúcifer a Leonor. Defendo que foi o ponto mais alto, pois foi aquele que mais me envolveu. Achei-o muito activo e cruel.
Penso que o maior erro foi centrar o livro na relação romântica e não desenvolver tanto o plano fictício, o que tornou o texto e a história com muitas referencias à paixão arrebatadora e poucas ao mundo fantástico que a escritora criou. Como sempre o equilíbrio entre as duas coisas é sempre a melhor escolha, o que não acontece em Viagem ao Templo dos Espíritos.
Exteriormente, gostei da capa e do título, apesar de o achar demasiado óbvio.

Sentia-me numa estranha forma de vida, desejava que os meus dias fizessem sentido com as minhas noites, pois nas minhas noites estava a minha verdadeira vida. Ninguém compreenderia esta loucura… nas minhas noites morria, viva de amor e alegria… nos meus dias vivia, morta de desespero e saudade… Que triste passar de vida… que lindo viver de morte…

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